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Pequenos poderes

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Poucos dias atrás, recebi uma notificação de que havia uma encomenda para mim a ser retirada nos Correios. Enviei um portador até lá munido do meu CRM, registro profissional no Conselho Regional de Medicina, que cumpre exatamente a mesma função da carteira de identidade. No meu caso, posso dizer que assim funciona há bastante tempo... Mas, o ponto é que o mensageiro retornou de mãos vazias. Explicou que o atendente havia rejeitado o documento e se recusado a entregar o pacote, justificando que “a assinatura estava muito pequena”. E chega. Próximo da fila.

Esse é um exemplo do que nós, brasileiros, vivenciamos regularmente no contato com que atende o público: a ousadia mal educada e improcedente de quem usufrui de pequenos poderes em prejuízo do direito do outro. De quem cria regras com base em julgamentos aleatórios, impondo restrições a processos legítimos. Esse é o sujeito preocupado em preservar seu modesto castelo, muitas vezes construído sobre um guichê de atendimento.

Na Saúde, o cidadão chega a ser maltratado na fila de espera, ludibriado por profissionais encarregados de seus cuidados, usado como ferramenta para geração de receita e privado da qualidade de assistência que lhe é de direito. São atitudes tóxicas, que contaminam a conduta das equipes, debilitam a sanidade mental de qualquer indivíduo bem intencionado e devastam a sociedade, transformando o sentimento de revolta em hostilidade em relação ao próximo.

Por quê? É o questionamento desapontado que nos fazemos.

De um lado, temos um Estado permissivo, que desrespeita o cidadão ao admitir que funcionários e autoridades se comportem como se tivessem o poder de decidir a vida das pessoas. De outro, atolamos nossas esperanças nos buracos do sistema educacional brasileiro, combinado à degradação de valores éticos e morais.

Com tantas rachaduras em nossas estruturas política, econômica, social e humana, buscamos prazeres para compensar nossas deficiências. E assim criamos um pântano chamado consumo, pulando uma curva de aprendizado que, antes de tudo, deveria nos educar a consumir. Como resultado, produzimos uma sociedade destituída do sentimento de pertencimento e que não se considera responsável por seus próprios atos.

Essa é a frivolidade do consumo.

O escritor Frederick Douglas disse que “é mais fácil construir crianças fortes do que consertar homens quebrados (na frase original, em inglês, “it’s easier to build strong children than to fix broken men”). Suponho que, dentro de nossas circunstâncias, precisemos cuidar de ambas as frentes.

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