Anahp | Área Restrita

O tempo que matamos e o tempo que nos mata


Há sempre uma pilha de livros sobre minha mesa de cabeceira, quase todos inacabados. Entre eles, um guia de viagem da China, um ensaio sobre a Revolução Russa, uma crônica sobre a Roma Antiga e a biografia da Rita Lee. Acontece com alguma frequência: eu me envolvo na leitura, o assunto toma meus pensamentos, mas, em certo momento, ele acaba sendo superado. Ou porque perde a sua atualidade, ou porque eu já movi meus interesses para outras matérias. Outras vezes, adquiro a obra apenas para que ela esteja ali, disponível. No fundo, eu acredito que, um dia, conseguirei consumir todos os livros que se encostam nas prateleiras de casa, cada um à espera de sua hora.

A leitura tem um timing, assim como todas as outras coisas. O senso de oportunidade determina o intervalo da ação, a chance de apostar em uma ideia e, também, a hora de dar espaço a ela. É como administrar uma pipa no céu: você precisa dar linha o suficiente para que ela possa voar, mas também não pode dar muito, ou então corre o risco de perdê-la. Ao mesmo tempo, se limitar demais, ela vai se manter próxima de você e ninguém irá perceber o quanto é maravilhosa. Todas essas decisões, acertadas ou equivocadas por um fio,  podem ser mais ou menos eficazes.
Cabe-nos encontrar o momento oportuno.
Algumas pessoas não só perdem o timing para chegar no horário marcado, para ajudar um amigo ou para tomar uma decisão, como também são reincidentes. Cometem o mesmo engano, repetidamente, e insistem em viver da maneira de sempre. Provavelmente, esse sujeito jamais irá mudar. Mesmo que o tempo parasse para que ele tivesse uma chance, desperdiçaria a sorte. Ainda há aqueles que parecem obcecados por um determinado assunto ou problema. Ruminam uma causa falida, que não trará benefício a ninguém. Não percebem que, dentro daquela pasta cheia de documentos e assuntos urgentes, alguns papéis, com o tempo, perdem relevância e necessidade por si só.

Toda obsessão parece conter um pouco de ressentimento. Mas ela também pode ter relação com a incapacidade de definir prioridades. Há pessoas que tropeçam no exercício constante de entender os tópicos que merecem atenção hoje e que, possivelmente, não terão a mesma importância amanhã. Também adiam o encontro com papéis que, uma hora, irão precisar de uma resposta, ou então perderão o timing. Por último, a obsessão pode revelar um desejo de domínio, quando o sujeito é autor de um enredo e acha que todos precisam se submeter a ele. É uma forma de fincar um ponto de vista.

Nas prateleiras, os livros têm prazo de validade ou, ainda, precisam de espaço e maturidade para ocupar a mesa de cabeceira. Talvez esse seja o aprendizado mais complexo de todos: dar um feedback difícil no momento adequado, lançar uma ideia quando os outros estão dispostos a recebê-la e desapegar-se de parâmetros que já não trazem bons resultados. Ninguém pode nos indicar a melhor maneira de usar o tempo que nos resta, mas, como disse o cineasta japonês Akira Kurosawa, “o tempo usado sem propósito não pode ser chamado de nada além de tempo perdido”.