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Formação ou deformação: qual é a sua escola, doutor?

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"O médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe" - Abel de Lima Salazar
Entre as várias polêmicas que surgiram no Brasil, nos últimos tempos, a violação de informações clínicas de uma paciente notória, por meio de aplicativos de mensagem e redes sociais, foi uma das mais simbólicas. A constatação de que o vazamento havia ocorrido pela ação de profissionais médicos gerou não apenas indignação, mas a desilusão da sociedade brasileira. Se o sigilo médico é um dos dogmas da Medicina, e se ela integra as classes profissionais nas quais a população mais confia, o que, então, há de errado?

Não bastasse a violação da ética médica, vieram, na sequência, os comentários desvairados, o desrespeito insolente e a exortação ao ressentimento por profissionais da mesma categoria. Como um grito de guerra que atropela quem vem pela frente, propaga-se pela arquibancada e, antes mesmo que os torcedores percebam, toma todo o estádio.

Assim é a força do grupo: quando não há a transmissão de um conjunto de regras e valores morais para que aquela comunidade se comporte de maneira correta, o menor dos incentivos à perversão já é o bastante.

Na Medicina, casos como esse atestam que algumas coisas mudaram, entre elas o perfil das pessoas que buscam a profissão. Não entenda isso como saudosismo, não é disso que se trata. Eu me refiro ao sujeito que, no passado, optava pela escola médica por amor e vocação, assim como um sacerdote decide por seu caminho, e que hoje, geralmente, escolhe apenas uma profissão oportuna. Aparentemente, a Medicina está se esforçando para se tornar uma categoria profissional como outra qualquer. O que, de fato, ela é. O problema está na simplificação da responsabilidade.

No passado, as famílias, primeiramente, e as instituições de ensino, como herdeiras da base educacional dos estudantes, encorajavam uma ampla formação pessoal do médico, que tinha de conhecer filosofia, política, cultura, psicologia e outras áreas do conhecimento. Hoje, ao que tudo indica, o médico sabe, no máximo, de medicina.

Não vamos nos ater, aqui, às exceções. Eu me refiro ao movimento que tornou o Brasil um país onde diversas faculdades na área da saúde abandonaram os padrões de formação humanista. Além disso, muitas não possuem os chamados hospitais universitários, por exemplo, ou professores de alto nível, com títulos de mestrado e doutorado, e fundamentam suas atividades no resultado econômico. Você sabe do que estou falando: a grande dificuldade, hoje, está em ingressar na faculdade de Medicina. Sair dela, contudo, é fácil.

Os compromissos com o ensino se afrouxaram. E aqueles líderes que, antes, bancavam a aspereza da profissão, o estudo pesado e a observância das regras acabam desistindo ou relaxando, de tanto receber críticas sociais e se depararem com a multiplicação de profissionais formados de qualquer maneira. No fundo, temos pessoas que não recebem incentivo de suas instituições, e também da sociedade.

O brasileiro perdeu um pouco do grau de seriedade, talvez por uma certa plasticidade dos comportamento éticos, ou pela percepção de que aqueles que fazem de qualquer jeito alcançam o mesmo sucesso, não raramente ainda mais, dos que aqueles que insistem na maneira correta. E essa supremacia do mal feito chegou ao ponto de confundir a sociedade.

Eu mesmo me senti confuso quando, tempos atrás, visitei uma faculdade de Medicina no interior de São Paulo. No centro acadêmico, pude ver um cartaz com o que, teoricamente, seria um hino daquela associação atlética. “Só dá louco e animal”, “deixa de ficar sonhando, tira a roupa e vai chegando” eram alguns dos trechos da letra. Preferi omitir os piores, com uso de termos como bacanal e outras referências pornográficas, por respeito aos leitores e leitoras.

Será possível que o estudante de Medicina tenha absorvido esses padrões? Tudo isso não parece, ao menos, um pouco estranho?

Faltam, em nossas instituições, condições corretas, normas de comportamento, definição de ética e, mais do que isso, uma checagem contínua das habilidades e condutas médicas. Ou teremos, cada vez mais, profissionais mal formados e deformados cuidando de nossa população.

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